quinta-feira, 14 de julho de 2011

crase

O correto emprego da crase é um grande desafio, não apenas para os que enfrentam as provas do Enem,
 vestibulares e concursos, mas também no cotidiano da grande maioria dos brasileiros. A revista Língua
Portuguesa publicou uma divertida e excelente matéria sobre o assunto. 

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Quando a crase muda o sentido
Muitos deixariam de ver a crase como bicho-papão se pensassem nela como uma ferramenta para evitar ambiguidade nas frases
Luiz Costa Pereira Junior

O emprego da crase costuma desconcertar muita gente. A ponto de ter gerado um
balaio de frases inflamadas ou espirituosas de uma turma renomada.
O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, é autor da sentença "A crase não foi feita para
humilhar ninguém", marco da tolerância gramatical ao acento gráfico.
O escritor Moacyr Scliar discorda, em uma deliciosa crônica "Tropeçando nos acentos",
e afirma que a crase foi feita, sim, para humilhar as pessoas;
e o humorista Millôr Fernandes, de forma irônica e jocosa, é taxativo: "ela não existe no
Brasil".O assunto é tão candente que, em 2005, o deputado João Herrmann Neto, que morreu
em abril deste ano aos 63 anos, propôs abolir esse acento do
português do Brasil por meio do projeto de lei 5.154, pois o considerava "sinal obsoleto,
que o povo já fez morrer". Bombardeado, na ocasião, por
gramáticos e linguistas que o acusavam de querer abolir um fato sintático como quem r
evoga a lei da gravidade, Herrmann Neto logo desistiu do projeto.
O acento grave (`) no a tem duas aplicações distintas, explica Celso Pedro Luft (1921-1995)
no hoje clássico Decifrando a Crase (Globo, 2005: 16):

1) Sinalizar uma fusão (a crase): indica que o a vale por dois (à = a a): "Dilma Rousseff compareceu às CPIs".
2) Evitar ambiguidade: sinaliza a preposição a em expressões de circunstância com substantivo feminino singular,
indicando que não se deve confundi-la com o artigo a. "Dilma Rousseff depôs à CPI". Sem a crase, a frase hipotética se revela ambígua:
Dilma destituiu a comissão parlamentar de inquérito ou apenas deu depoimento à comissão? O sinal de crase tira a dúvida.

Sinalizar a contração entre vogais idênticas (no caso, a preposição a e o artigo a) é um desafio que, mesmo quando parece complicado,
pode ser intuído pelo usuário do idioma, em regras relativamente simples de ser incorporadas.

Ambiguidade
A grande utilidade do acento de crase no a, entretanto, que faz com que seja descabida a proposta de sua extinção por decreto ou falta de uso,
 é a assinalada por Luft: crase é, antes de mais nada, um imperativo de clareza.

Muitas frases em que a preposição indica uma circunstância (instrumento, meio etc.), em sequências do tipo "preposição a + substantivo feminino
 singular", podem dificultar a interpretação por parte de
um leitor ou ouvinte. Não raro, a ambiguidade se dissolve com a crase - em outras, só o contexto resolve o impasse. 

Exemplos de casos em que a crase retira a dúvida de sentido de uma frase, lembrados por Luft em Decifrando a Crase: 

Cheirar a gasolina (aspirar) x cheirar à gasolina (feder a). 

A moça correu as cortinas (percorrer) X A moça correu às cortinas. (seguiu em direção a).
O homem pinta a máquina (usa pincel nela) X O homem pinta à máquina (usa uma máquina para pintar).
Referia-se a outra mulher (conversava com ela) X Referia-se à outra mulher (falava dela).

Contexto
O contexto até se encarregaria, diz o autor, de esclarecer a mensagem em casos como: "vimos a cidade"; "viemos a cidade". "conserto a máquina";
"escrevo a máquina". Um usuário do idioma mais atento intui um acento necessário, garantido pelo contexto em que a mensagem se insere, se a
 finada testemunha do exemplo a seguir destituiu a relatora da OAB ou prestou depoimento: 
Morta a testemunha que depôs a relatora da OAB.

Mas, em geral, contextos elípticos ainda deixariam dúvidas em exemplos do tipo: "Fique a vontade onde está" ou "A sombra das raparigas em flor".

  Cheirar a gasolina                                                   Cheirar à gasolina
(aspirar o combustível)                                           (feder tal qual o combústivel)
  

"Fique a vontade onde está" indica que uma entidade metafísica chamada "vontade" deve se manter suspensa ou que o interlocutor da
 mensagem deve se sentir confortável?

A falta de clareza, por vezes, ocorre na fala, não tanto na escrita. Exemplos de dúvida fonética, sugeridos por Francisco Platão Savioli,
professor e coordenador de gramática e texto no Anglo Vestibulares:

- "A noite chegou." Na linguagem falada há ambiguidade; na escrita, com ou sem o acento, não. Alguém chegou à noite, ao escurecer?
Ou foi a noite que chegou no fim da tarde? Como saber o sentido de uma frase como essa, sem o acento?
 
- "Ela cheira a rosa." A afirmação será ambígua, se oral. Se escrita, terá sentidos diferentes, se houver o acento grave no a que precede "rosa" ou
se ele for dispensado. "Ela cheira a rosa" significa que a dama aspira o perfume da rosa. Já "ela cheira à rosa" indica que a princesa tem o perfume
da flor. Na escrita, com a crase, nem é preciso explicar ou entender o contexto. 

- "Matar alguém à fome." Sem acento, alguém mata a própria fome. Com, mata-se alguém pela fome. Como na África ou em ásperas periferias
 brasileiras.
Sem o sinal diacrítico, construções como essas serão sempre ambíguas. Nesse sentido, a crase pode ser antes um problema de leitura do que
prioritariamente de escrita.

Pintar a máquina
(aplicar tintura numa superficie)
Em expressões com palavras femininas (expressões adverbiais, conjuntivas e prepositivas), há o
acento grave de clareza, utilizado por tradição: "às vezes", "à moda de", "à espera", "à medida que",
"à custa de", "à prova de" etc.
Embora com expressões adverbiais de instrumento o emprego do acento da crase seja desaconselhado
pelos gramáticos, seu uso é frequente no português brasileiro, mesmo quando desnecessário: Escrever a
máquina, a mão, a tinta, a caneta (a lápis); ferir a faca (a cacete); calar a bala (a tiro), matar a baioneta (a punhal).
Acentua-se, se houver confusão de sentido. Alguém matará uma baioneta? Coisa difícil. Quem aplica o sinal intui
um chamado da mensagem ao uso do acento grave de clareza. "Produzir a máquina" será fabricar a máquina ou
produzir com a máquina? Então: "Produzir à máquina". Por isso, "pintar a mão" será pintar, desenhar na própria mão,
como amantes de tatuagens? Ou pintar com a mão, sem instrumentos, como fazem alguns sensitivos? Então: "Pintar à mão".
Mesmo a regra da crase como índice de contração com "distância" tem sido interpretada pelos usuários do idioma como
 dependente do contexto.

Pintar à maquina
(usar algum tipo de mecanismo para pintar)
Pela regra tradicional, não há acento, se a "distância" estiver indeterminada:
"Ficar a distância". "Seguiu-a a distância". "Manteve-se a distância segura". Se a"distância" estiver definida, determinada
numericamente, há acento: "Ficou à distância de dois metros". "Viu o corpo à distância de três passos".
Influência
Há, no entanto, autores que sempre acentuam o a dessa locução. Não por acaso, dicionários como Houaiss incorporam
as diferenças de sentido que os usuários da língua tendem a sentir ao usar a locução.
No sentido de "de longe" e "de um ponto distante", muitos brasileiros sentem que faz sentido usar crase. Exemplo de Houaiss:
 "a sentinela vigia à distância. Entende-se "à distância" como "localizado a (certa) distância; distante, afastado". No sentido de "ao longe" e "em um ponto distante" não se sentiria a necessidade da crase: "viram algo movendo-se a distância". 
O que os usuários intuem do sentido implícito à frase parece influir, por exemplo, no uso da crase com nome próprio feminino,
 o que torna o acento muitas vezes optativo: "Fizeram uma homenagem à Maria"revela mais intimidade do que "Fizeram uma homenagem a Maria".Assim também "desenhei a caneta" x "desenhei à caneta"; "a polícia recebeu a bala" x "a polícia recebeu à bala"; "dar à luz" x "dar a luz".

   Chegar a noite                                                           Chegar à noite
    (anoitecer)                                                                  (chegar tarde)
 

Expressões
Em crase, a intuição e a generalização de exemplos concretos podem ser mais efetivas que a decoreba de regras. 

Se intuímos a regra básica de que só se usa crase diante de palavras femininas quando há uma preposição seguida de um artigo,
evitamos ocorrências como "à 80 km", "à correr" ou "à Pedro". Afinal, nunca pensamos em crase com palavras masculinas ou verbos:
daí não haver em "a lápis", "a contragosto", "a custo". 
Se lembramos que a crase serve para eliminar uma ambiguidade, também evitamos tirar a crase em contextos que pedem, por exemplo, "
à beira", "à boca miúda", "à caça". Assim, fica muito mais fácil pensar a crase.

Ensinando a crase

O estudo do uso da crase é excelente oportunidade para o professor ou pais discutirem com seus alunos ou filhos a construção de sentido em um texto, as variantes linguísticas e a ambiguidade. A seguir, uma sugestão de como organizar o conhecimento e ensinar um aluno, um filho, um amigo.

Desafios:
- Área do conhecimento: Linguagens e Códigos.
- Objetivo: Refletir sobre regras, variantes e ambiguidades.
- Competências: Reconhecer estruturas e construções de texto, e posições críticas a usos sociais de linguagens e sistema de comunicação.

Propostas:
- Discutir o uso sintático e estilístico da crase e diferenças entre as variedades escrita e falada, como estratégia linguística;

- Analisar textos em que a crase seja essencial na construção do sentido e explicar o conceito de crase como fenômeno fonético.

- Debater com os alunos a posição defendida pelos escritores, pelos entrevistados, na revista Língua.

Atividade 1: Sondagem 
- Propor debate a partir da leitura do texto de Língua, com as opiniões de escritores e frases em que ocorram empregos obrigatórios, facultativos e estilísticos da crase. 

- Solicitar ao aprendiz que exponha suas dificuldades ou razões que defendam ou não a extinção desse uso. (É boa oportunidade para discutir o papel social da linguagem.) 

Atividade 2: Aplicação
- Analise frases em que há ambiguidade: "desenhei a caneta" x "desenhei à caneta"; "compras a vista" x "compras à vista"; "a polícia recebeu a bala" x "a polícia recebeu à bala"; "li até a última página" x "li até à última página"; "bater a porta" x "bater à porta"; "dar à luz" x "dar a luz".

- Discutir o uso facultativo do artigo feminino em expressões (adjuntos adverbiais e pronomes possessivos) e o efeito estilístico em cada situação. Mostre que a crase será usada para resolver a ambiguidade, caso o contexto não a explicite. 

- Analisar empregos da regência dos verbos "chegar" e "ir": "chegou na escola" x "chegou à escola"; "foi na padaria" x "foi à padaria". Discutir a noção de variante linguística e adequação do discurso. 

- Diferenciar "Cheguei à moto" de "Cheguei na moto". Mostrar a diferença de significado na regência. Analisar a canção Você é Linda, de Caetano Veloso e explicar a diferença de sentido provocado na regência do verbo: "ir no seu íntimo" x "ir ao seu íntimo". Caetano faz declaração de amor da regência do verbo.

- Trabalhar Sampa, de Caetano, e mostrar um uso estilístico da crase: "E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho". Peça que se passe o período para ordem direta e levante hipóteses para o uso da crase. 

- Solicite que se use, na canção Eu Sei que Vou te Amar, de Vinícius de Moares e Tom Jobim, o acento grave no verso "A espera de viver ao lado teu", e que se explique a diferença de sentido provocada. 

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