SER
INTELIGENTE SAIU DE MODA
par “Nada
mais brega do que bancar o inteligente”, afirmam, sem nenhuma vergonha, muitos
estudantes ingleses a seus boquiabertos professores. Diante do fato, alguns dos
mais brilhantes catedráticos decidiram se reunir na tentativa de explicar o
fenômeno. Resultado? Se ainda não foi banido pelos professores, o adjetivo
clever (inteligente) está muito perto disso. Decidiu-se inclusive que, daqui
por diante, será preciso tomar cuidado antes de chamar de inteligentes os
melhores alunos. Porque, segundo uma pesquisa, são exatamente os melhores da
turma os que mais correm risco de cair na prática do bullying (assédio físico
ou psicológico aos colegas) para tentar se livrar da pecha de chatos. Os
professores estão convencidos de que os estudantes, após serem definidos como
“inteligentes”, se sentem de algum modo marcados. E por isso reagem
adversamente. Provas disso? Em numerosos casos, muitos deles se recusam
inclusive a retirar os prêmios escolares que ganharam por medo de serem ridicularizados
pelos colegas.
par Existe,
no entanto, um outro aspecto mais sociológico, ligado ao desenvolvimento de uma
sociedade tipicamente consumista que se agarra aos “mitos” do espetáculo e das
celebridades do momento. Ou seja, não mais os grandes escritores e
compositores, os cientistas e filósofos, não mais os grandes empreendedores
constituem os padrões de sucesso e de afirmação social a serem perseguidos. A
culpa deve ser atribuída, sobretudo, aos atuais modelos e cânones de
celebridade que contribuem para bloquear os jovens, afastando-os do sucesso
acadêmico. Cita-se, por exemplo, um self-made-man como Alan Sugar, popularmente
conhecido como “Barão Sugar”, empresário britânico, conhecidíssimo personagem
da mídia e consultor político. Nascido de família humilde, ele é hoje dono de
uma fortuna estimada em US$ 1,2 bilhão. A exemplo de outros homens e mulheres
de sucesso contemporâneos, Sugar não costuma ler livros e gosta de se
vangloriar das notas baixas que alcançou na escola. Não menos deprimente foi o
panorama desenhado por Ann Nuckley, administradora escolar em Southwark, bairro
no sul de Londres. Segundo ela, os estudantes preferem adotar como modelo as
celebridades do momento que transitam pelas revistas de fofoca social ou as que
analisam nos mínimos detalhes a gloriosa existência do último garotão que, da
noite para o dia, saiu do anonimato para a luz do estrelato graças a um papel
na novela da televisão.
(Adaptado de:
PELLEGRINI, L. Ser inteligente saiu de moda. Revista Planeta, ed. 47, p. 34-35,
out. 2010.)
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